Nostalgia
Há muitos anos, éramos poucos os angolanos a viver em cidades de betão. Quase tudo era mata e bairros periféricos, um mundo à parte onde a vida pulsava num ritmo diferente. Sonhávamos em ir pra cidade, sim, mas vivíamos a nossa vida normalmente, inteiros no nosso chão. Não havia energia eléctrica. A luz tinha hora marcada: o gerador acordava às 18 horas e adormecia às 21, por causa do combustível. E nesse intervalo, a noite era nossa. Não havia dinheiro para comprar brinquedos, por isso, as nossas mãos aprendiam cedo a arte de criar. Carros de latas de conserva, brinquedos de argila, casas de areia, carros e bonecos de lodo. A arquitetura evoluiu para as bases, pequenas tendas onde cachos de papelão uniam pilhas eléctricas e as lâmpadas de Natal roubavam a escuridão. Éramos engenheiros de pneus com olhos e paus, empurrados como veículos. Cirurgiões de rádios e materiais estragados apanhados no lixo, que consertávamos e transformávamos em estúdios musicais para gravar músicas em c...
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