O perfeccionismo e a crise de saúde mental entre universitários

 


Estava navegando pelo X quando vi uma publicação feita pela APA. Toda a minha atenção foi catalisada para ela e decidi logo escrever um artigo a respeito. Primeiro, vou partilhar a publicação da APA abaixo:


"O perfeccionismo não é apenas uma luta pessoal — é uma preocupação crescente de saúde pública. Novas pesquisas sugerem que os estudantes universitários de hoje são mais perfeccionistas do que nunca" (American Psychological Association, 2026).


Essa constatação, divulgada pela American Psychological Association (APA), soa como um alerta colectivo. Dados recentes indicam que, longe de ser uma característica trivial de personalidade, o perfeccionismo tem se revelado um factor de risco robusto para o desenvolvimento de quadros como depressão e ansiedade — e sua prevalência entre os jovens não para de crescer. As causas, apontam os pesquisadores, estão enraizadas em factores culturais e económicos mais amplos.


A crescente preocupação de saúde pública


Um estudo publicado no periódico Psychological Bulletin analisou dados de 307 pesquisas, envolvendo mais de 82 mil estudantes universitários dos Estados Unidos, Canadá e Reino Unido, entre 1989 e 2024 (Curran, Pose, & Hill, 2026). Os resultados mostraram um aumento consistente nos níveis de perfeccionismo autorrelatado ao longo desse período.


“O perfeccionismo é um risco de saúde pública — está associado ao aumento da depressão e da ansiedade”, afirmou Thomas Curran, PhD, autor principal do estudo e professor associado da London School of Economics and Political Science. “Se quisermos enfrentar a crise de saúde mental dos jovens, precisamos focar nesses factores culturais e económicos” (American Psychological Association, 2026).


Os pesquisadores descobriram ainda que a associação entre perfeccionismo e problemas de saúde mental se manteve estável ao longo do tempo — ou seja, quanto maior o nível de perfeccionismo, maior a probabilidade de sintomas como depressão e ansiedade, independentemente do período analisado (Curran et al., 2026). À medida que o perfeccionismo aumentou ao longo das décadas, é provável que ele tenha contribuído significativamente para a intensificação das dificuldades emocionais entre os jovens.


As dimensões do perfeccionismo


O perfeccionismo não é um conceito unidimensional. Hewitt e Flett (1991) desenvolveram a Escala Multidimensional de Perfeccionismo, que identifica três tipos principais:


1. Perfeccionismo autoorientado — padrões excessivamente elevados que a pessoa impõe a si mesma.

2. Perfeccionismo socialmente prescrito — a percepção de que os outros e a sociedade exigem perfeição do indivíduo.

3. Perfeccionismo orientado para o outro — a expectativa de que as pessoas ao redor sejam perfeitas.


Estudos mais recentes têm operacionalizado o construto por meio de duas dimensões hierarquicamente superiores: as preocupações perfeccionistas (perfeccionistic concerns) e os esforços perfeccionistas (perfectionistic strivings) (Hill, Madigan, Curran, Jowett, & Rumbold, 2024).


De acordo com o levantamento de Curran e colaboradores (2026), as preocupações perfeccionistas — que incluem medo de falhar, indecisão, preocupação excessiva com erros e ansiedade diante da avaliação negativa dos outros — aumentaram de forma mais acentuada do que os esforços perfeccionistas. Em outras palavras, os estudantes de hoje não apenas estabelecem padrões altos, mas vivem com um temor constante de não corresponder às expectativas alheias.


Os impulsionadores culturais e econômicos


Por que os jovens estão se tornando cada vez mais perfeccionistas? Os pesquisadores identificaram dois factores macroestruturais centrais:


· Desaceleração do crescimento econômico (PIB per capita) esteve associada a níveis mais elevados de esforços perfeccionistas. Quando as oportunidades econômicas diminuem, os jovens tendem a “compensar com esforço”, estabelecendo metas cada vez mais altas.

· Aumento da desigualdade de renda relacionou-se a aumentos mais acentuados nas preocupações perfeccionistas. “Quando a desigualdade cresce, o que se vê é que o medo e a preocupação em cometer erros e com a opinião dos outros começam a se tornar uma característica mais central da psicologia dos jovens” (American Psychological Association, 2026).


“Quando há falta de oportunidade económica, os jovens parecem compensar com esforço. E quando a desigualdade cresce, o medo e a preocupação com erros e com a opinião alheia se tornam mais centrais na psicologia dos jovens” (Curran, apud American Psychological Association, 2026).


O estudo também desafia a tese de que as mídias sociais seriam as grandes vilãs da saúde mental juvenil. Embora as tecnologias digitais possam intensificar pressões, a alta nos níveis de perfeccionismo já era observável antes mesmo do surgimento das redes sociais, sugerindo que factores estruturais mais profundos estão em jogo (Curran et al., 2026; American Psychological Association, 2026).


O perfeccionismo no contexto brasileiro


Embora a maioria dos grandes levantamentos tenha sido conduzida em países de língua inglesa, a realidade brasileira não está distante. Um estudo nacional recente com 3.534 estudantes de pós-graduação descobriu que as preocupações perfeccionistas surgiram como o segundo indicador mais forte de sofrimento psicológico, perdendo apenas para a preocupação e empatando com neuroticismo (Diniz, Rodrigues, & Mansur-Alves, 2024). Coletivamente, preocupações perfeccionistas, preocupação e neuroticismo foram responsáveis por 81% do sofrimento psicológico na amostra (Diniz et al., 2024).


Pesquisas adicionais indicam que, no ensino superior brasileiro, cerca de 83% dos universitários relatam dificuldades emocionais em seus percursos acadêmicos (The Conversation, 2024). O perfeccionismo maladaptativo tem sido associado a ansiedade, depressão e exaustão emocional nessa população.


Esses dados sugerem que o fenômeno também é relevante no Brasil, ainda que careçamos de estudos longitudinais de grande escala. A pressão por alto desempenho acadêmico, combinada com um contexto de incerteza econômica e competitividade crescente, pode estar alimentando o perfeccionismo entre os estudantes brasileiros — e, consequentemente, agravando os índices de sofrimento psicológico.


Implicações e intervenções


Compreender o perfeccionismo como um fenômeno social e não meramente individual é o primeiro passo para enfrentá-lo. A pesquisa indica que intervenções focadas exclusivamente no indivíduo (como treinar o estudante a “ser menos perfeccionista”) podem ser insuficientes se não vierem acompanhadas de mudanças estruturais nas instituições de ensino e na cultura social.


Por outro lado, estudos também apontam que a autocompaixão — a capacidade de se tratar com gentileza diante de falhas e imperfeições — pode atuar como um factor protectivo. Kawamoto e colaboradores (2023) descobriram que estudantes classificados como perfeccionistas adaptativos relataram níveis significativamente mais altos de autocompaixão e menores índices de sofrimento psicológico quando comparados a perfeccionistas mal-adaptativos.


Para educadores, gestores universitários e profissionais de saúde mental, algumas direcções são sugeridas:


· Revisar culturas avaliativas que supervalorizam a nota máxima e o desempenho impecável.

· Oferecer psicoeducação sobre as dimensões do perfeccionismo e seus riscos.

· Promover a autocompaixão como ferramenta de regulação emocional.

· Criar espaços de escuta onde o erro e a vulnerabilidade possam ser acolhidos, não punidos.


O contexto angolano e a emergência do cuidado em saúde mental


Embora o perfeccionismo, como traço de personalidade, ainda não tenha sido amplamente estudado de forma específica em Angola, os indicadores de sofrimento psicológico no ensino superior angolano são preocupantes e sugerem a presença do fenómeno. Uma pesquisa sobre a qualidade de vida de estudantes de Medicina da Universidade Agostinho Neto, em Luanda, revelou pontuações baixas nos domínios físico e ambiental, com os primeiros e os últimos anos do curso a registarem os níveis mais críticos (Mbala et al., 2025). Em paralelo, um estudo sobre a ansiedade em estudantes universitários em Benguela aponta para um elevado desgaste psicológico nesta população, um terreno fértil para a manifestação de preocupações perfeccionistas (Gumbe, 2026).


Neste ambiente de recursos limitados e com uma força de trabalho especializada ainda insuficiente (Rodríguez-Mora et al., 2026), a pressão académica e a escassez de suporte adequado criam condições para que o medo do erro e a autoexigência se tornem fontes significativas de ansiedade.


Reconhecendo a gravidade do cenário, assiste-se a uma resposta institucional inédita. O projecto ANGOSAP, financiado pela União Europeia, está a implementar centros de diagnóstico e orientação psicológica em várias universidades angolanas, como assegura a ANGOP, a agência de notícias do país (ANGOP, 2025). Com um objectivo claro de prevenção do abandono escolar e de promoção de competências socioemocionais, este movimento representa um passo crucial: ao estruturar o apoio à saúde mental, as instituições angolanas começam a criar as bases para, no futuro, quantificar e tratar o perfeccionismo desadaptativo, transformando-o de uma angústia silenciosa num problema de saúde pública com resposta efectiva.


Considerações finais


Os jovens de hoje não escolheram ser mais perfeccionistas — eles estão respondendo a um ambiente social e económico que os pressiona a serem impecáveis. A mensagem da APA é clara: o perfeccionismo não é um problema apenas individual, mas uma questão de saúde pública que exige respostas estruturais, institucionais e, também, compassivas.


Como nos lembram Curran e Hill (2019), a busca incessante pela perfeição pode até gerar conquistas impressionantes a curto prazo, mas o custo para a saúde mental tem se mostrado alto demais para ser ignorado. Talvez o caminho não seja abandonar os padrões elevados, mas aprender a conviver com a imperfeição — e, sobretudo, a repensar colectivamente o que, afinal, vale a pena ser perseguido.



Por Fabio de Sousa Candido, Psicólogo Clínico, Professor, Palestrante e Educador


Referências


American Psychological Association. (2026, May 28). Young adults are more perfectionistic than ever before. https://www.apa.org/news/press/releases/2026/05/young-adults-perfectionistic


Curran, T., & Hill, A. P. (2019). Perfectionism is increasing over time: A meta-analysis of birth cohort differences from 1989 to 2016. Psychological Bulletin, 145(4), 410–429. https://doi.org/10.1037/bul0000138


Curran, T., Pose, P. M., & Hill, A. P. (2026). Perfectionism is accelerating over time: A cross-temporal meta-analytic review of 35 years of college student data. Psychological Bulletin, 152(3), 255–287. https://doi.org/10.1037/bul0000518


Diniz, M. L. N., Rodrigues, W. S., & Mansur-Alves, M. (2024). O papel do perfeccionismo na crise de saúde mental na pós-graduação. Revista Brasileira de Terapias Cognitivas, 20, e20240449. https://doi.org/10.5935/1808-5687.20240449


Hewitt, P. L., & Flett, G. L. (1991). Perfectionism in the self and social contexts: Conceptualization, assessment, and association with psychopathology. Journal of Personality and Social Psychology, 60(3), 456–470.


Hill, A. P., Madigan, D. J., Curran, T., Jowett, G. E., & Rumbold, J. L. (2024). Exploring and evaluating the two-factor model of perfectionism in sport. Journal of Psychoeducational Assessment, 42(6), 612–634.


Kawamoto, A., Sheth, R., Yang, M., Demps, L., & Sevig, T. (2023). The role of self-compassion among adaptive and maladaptive perfectionists in university students. The Counseling Psychologist, 51(1), 113–144. https://doi.org/10.1177/00110000221129606


The Conversation. (2024, May 29). Saúde mental na universidade: ansiedade, desânimo e estratégias de enfrentamento. https://theconversation.com


Referências adicionais


· ANGOP. (2025, Novembro 6). Docente enaltece criação de centro de orientação psicológica. https://www.angop.ao


· Gumbe, T. (2026). A Prevalência e os Fatores associados à Ansiedade em Estudantes Universitários em Benguela – Angola. RevSALUS, 8(1), 45–59.


· Mbala, C., et al. (2025). Quality of Life of Medical Students in Angola: A Cross-Sectional Study at Agostinho Neto University. Cureus, 17(6), e85613. https://doi.org/10.7759/cureus.85613


· Rodríguez-Mora, A., et al. (2026). Building university-based psychological and psychoeducational services in Angola (ANGOSAP): a brief report on rationale, design, and early implementation context. Open Research Europe, 6, 154.

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