Estudo Comparativo da Terminologia das Perturbações Mentais e da Análise do Comportamento Aplicada (ABA) em Portugal, Brasil e Angola
Por Fabio de Sousa Candido
Introdução
A Psicologia e a Psiquiatria utilizam uma linguagem técnica que exige precisão, rigor científico e uniformidade conceptual. Apesar de Portugal, Brasil e Angola partilharem a língua portuguesa como idioma oficial, existem diferenças relevantes na terminologia utilizada para descrever perturbações mentais, procedimentos clínicos e conceitos associados à Análise do Comportamento Aplicada (ABA).
Estas diferenças resultam principalmente de três factores:
1. A evolução histórica e sociocultural da língua portuguesa em cada país;
2. A influência de diferentes sistemas internacionais de classificação diagnóstica, nomeadamente o Manual Diagnóstico e Estatístico das Perturbações Mentais (DSM-5-TR) e a Classificação Internacional de Doenças (CID-11);
3. As tradições académicas e clínicas adoptadas pelas universidades, instituições de saúde e organizações profissionais de cada país.
No Brasil, observa-se uma forte influência da literatura norte-americana e do DSM-5-TR, sendo predominante a utilização do termo transtorno. Em Portugal, utiliza-se oficialmente o termo perturbação, seguindo a tradição linguística europeia e a terminologia adoptada nas traduções portuguesas da CID-11.
Angola apresenta uma realidade particular. Embora possua características linguísticas e culturais próprias, mantém uma forte ligação histórica e institucional com Portugal, fazendo com que muitos documentos oficiais e académicos utilizem a terminologia portuguesa. Contudo, devido ao intercâmbio científico com o Brasil, também existem profissionais e estudantes angolanos que utilizam termos provenientes da literatura brasileira.
Este estudo apresenta uma análise comparativa da terminologia utilizada em Portugal, Brasil e Angola, com especial atenção às perturbações mentais e aos conceitos fundamentais da Análise do Comportamento Aplicada.
1. Diferenças na Terminologia das Perturbações Mentais
A principal diferença terminológica entre Brasil e Portugal encontra-se na utilização dos termos transtorno e perturbação.
No Brasil, predomina o termo transtorno, utilizado nas traduções do DSM-5-TR e amplamente presente na literatura científica brasileira.
São exemplos:
• Transtorno mental;
• Transtorno de ansiedade;
• Transtorno depressivo maior;
• Transtorno bipolar;
• Transtorno obsessivo-compulsivo (TOC);
• Transtorno do Espectro Autista (TEA);
• Transtorno de Défice de Atenção e Hiperactividade (TDAH);
• Transtorno da personalidade;
• Transtorno de Stress Pós-Traumático (TEPT).
Em Portugal, a terminologia utilizada é:
• Perturbação mental;
• Perturbação de ansiedade;
• Perturbação depressiva major;
• Perturbação bipolar;
• Perturbação obsessivo-compulsiva (POC);
• Perturbação do Espetro do Autismo (PEA);
• Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção (PHDA);
• Perturbação da personalidade;
• Perturbação de Stress Pós-Traumático (PSPT).
Em Angola, recomenda-se a utilização da terminologia portuguesa em documentos académicos e científicos, sobretudo em trabalhos desenvolvidos no contexto universitário e institucional.
2. Diferenças na Terminologia da Análise do Comportamento Aplicada (ABA)
A Análise do Comportamento Aplicada (ABA) surgiu nos Estados Unidos da América e expandiu-se internacionalmente através da literatura científica inglesa. Por essa razão, muitos dos seus conceitos foram inicialmente traduzidos e divulgados no Brasil.
Portugal adaptou parte dessa terminologia ao português europeu.
No Brasil, são frequentemente utilizados os seguintes termos:
• Modelagem;
• Habilidades sociais;
• Treino de habilidades;
• Prompt;
•Fading;
• Terapeuta ABA.
Em Portugal e em contextos influenciados pelo português europeu, encontram-se:
• Modelação;
• Competências sociais;
• Treino de competências;
• Ajuda, pista ou prompt;
• Desvanecimento da ajuda;
• Técnico ABA ou Analista do Comportamento.
Apesar destas diferenças linguísticas, os conceitos científicos permanecem equivalentes.
Alguns termos são utilizados de forma semelhante nos três países:
• Reforço;
• Reforço positivo;
• Reforço negativo;
• Punição;
• Extinção;
• Encadeamento;
• Generalização;
• Discriminação;
• Comportamento-alvo;
• Comportamento adaptativo;
• Reforçador.
3. Diferenças na Terminologia Clínica
No contexto clínico, também existem diferenças terminológicas.
No Brasil, são mais utilizados:
• Paciente;
• Prontuário;
• Laudo psicológico;
• Consulta psicológica;
• Alta.
Em Portugal, utiliza-se preferencialmente:
• Utente;
• Processo clínico;
• Relatório psicológico;
• Consulta de Psicologia;
• Alta clínica.
Em Angola, verifica-se uma utilização mista. O termo paciente é comum na prática clínica, enquanto expressões como relatório psicológico, processo clínico e consulta de Psicologia apresentam influência portuguesa.
4. Terminologia Relacionada com o Autismo
No domínio do autismo, existem algumas diferenças terminológicas.
No Brasil, são comuns:
• Criança autista;
• Transtorno do Espectro Autista (TEA);
• Estereotipia;
• Crise comportamental;
• Sobrecarga sensorial;
• Integração sensorial.
Em Portugal:
• Criança com Perturbação do Espetro do Autismo;
• Perturbação do Espetro do Autismo (PEA);
• Comportamento estereotipado;
• Crise comportamental;
• Sobrecarga sensorial;
• Integração sensorial.
Actualmente, existe uma tendência internacional para uma linguagem mais centrada na pessoa, utilizando expressões como pessoa com Perturbação do Espetro do Autismo. Contudo, algumas pessoas autistas preferem a expressão pessoa autista, considerando o autismo como parte da sua identidade.
A escolha da terminologia deve respeitar o contexto científico e a preferência individual.
5. Influência da CID-11 e do DSM-5-TR
A terminologia utilizada nos diferentes países está relacionada com os sistemas internacionais de classificação adoptados.
Brasil
O Brasil apresenta maior influência do DSM-5-TR.
Características:
• Utilização predominante do termo "transtorno";
• Grande produção científica baseada na literatura norte-americana;
• Forte influência da Associação Americana de Psiquiatria.
Portugal
Portugal apresenta maior proximidade com a CID-11.
Características:
• Utilização oficial do termo "perturbação";
• Adaptação linguística ao português europeu;
• Alinhamento com a terminologia da Organização Mundial da Saúde.
Angola
Angola utiliza a CID como referência internacional no sistema de saúde.
Características:
• Influência da terminologia portuguesa;
• Uso crescente da CID-11;
• Existência de influência da literatura brasileira em determinados contextos académicos.
6. Recomendações para Trabalhos Académicos em Angola
Para monografias, dissertações, relatórios psicológicos e artigos científicos produzidos em Angola, recomenda-se:
• Utilizar o termo perturbação em vez de transtorno;
• Utilizar Perturbação do Espetro do Autismo (PEA) em vez de Transtorno do Espectro Autista (TEA);
• Utilizar Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção (PHDA) em vez de TDAH;
• Preferir relatório psicológico em vez de laudo psicológico;
• Utilizar uma terminologia consistente ao longo de todo o documento;
• Apresentar equivalências terminológicas quando houver necessidade de comparação internacional.
Conclusão
Embora Portugal, Brasil e Angola partilhem a língua portuguesa, existem diferenças importantes na terminologia utilizada na Psicologia, Psiquiatria e Análise do Comportamento Aplicada.
O Brasil utiliza predominantemente a terminologia influenciada pelo DSM-5-TR, adoptando o termo transtorno. Portugal utiliza oficialmente o termo perturbação, alinhado com o português europeu e com a tradição da CID-11.
Angola, devido aos seus vínculos históricos, linguísticos e institucionais com Portugal, beneficia da utilização da terminologia portuguesa em documentos académicos e científicos, embora reconheça a coexistência de termos provenientes da literatura brasileira.
O conhecimento destas diferenças contribui para uma comunicação científica mais rigorosa, facilita a cooperação entre países de língua portuguesa e promove maior integração da Psicologia e da Psiquiatria no espaço lusófono.
Referências Bibliográficas
1. American Psychiatric Association. (2022). Manual Diagnóstico e Estatístico das Perturbações Mentais – DSM-5-TR. Artmed.
2. Organização Mundial da Saúde. (2022). Classificação Internacional de Doenças – CID-11.
3. Cooper, J. O., Heron, T. E., & Heward, W. L. (2020). Applied Behavior Analysis (3.ª ed.). Pearson.
4. Behavior Analyst Certification Board (BACB). (2022). Ethics Code for Behavior Analysts.
5. Fonseca, A. C. (2018). Psicologia e Educação. Coimbra: Almedina.
6. Ordem dos Psicólogos Portugueses. Documentos técnicos e orientações clínicas.
7. Ministério da Saúde de Portugal. Documentação sobre a implementação da CID-11.



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