Do Sentir ao Pensar: O Nascimento da Consciência, o Protoego e a Hipótese do Monocogno
Como o cérebro transforma sensações, afectos e experiências em consciência humana
Durante séculos, a humanidade procurou compreender aquilo que nos torna verdadeiramente humanos. A tradição filosófica ocidental frequentemente colocou o pensamento como o ponto central da existência. A famosa afirmação de René Descartes — “Penso, logo existo” — tornou-se uma das expressões mais influentes da história da filosofia, colocando a razão como fundamento da identidade humana.
Entretanto, os avanços da neurociência contemporânea mostram que talvez a ordem seja diferente. Antes de pensar, o ser humano sente; antes de construir conceitos, percebe; antes de formular ideias abstractas, experimenta a própria existência através do corpo. A consciência não parece surgir inicialmente da racionalidade, mas de uma relação muito mais primitiva entre organismo e ambiente.
É nesse ponto que as ideias do neurocientista António Damásio oferecem uma contribuição fundamental. Ao estudar a relação entre cérebro, corpo e emoções, Damásio defende que a consciência não nasce quando o cérebro começa a raciocinar, mas quando um organismo vivo desenvolve a capacidade de representar continuamente o seu próprio estado interno.
Esta perspectiva conduz-nos a uma mudança profunda na compreensão da natureza humana: talvez não sejamos, em primeiro lugar, seres racionais que possuem emoções, mas seres sensíveis que desenvolveram a racionalidade como uma extensão superior da experiência de sentir.
Foi precisamente por essa razão que, no desenvolvimento da ideia de Homo sensibilis, procurei defender que a sensibilidade constitui a base sobre a qual todas as capacidades humanas superiores são construídas. A razão não desaparece nessa perspectiva, mas ocupa o seu devido lugar: ela é uma conquista posterior de um organismo que primeiro aprendeu a sentir.
O protoego: a primeira forma de consciência
Antes da existência de uma personalidade estruturada, antes da linguagem e antes da consciência reflexiva, existe uma organização mais fundamental da experiência humana. Denomino esse estágio inicial de protoego.
O protoego não representa uma ausência de humanidade, mas a primeira manifestação da organização psíquica. É o organismo que sente antes de compreender, que reage antes de interpretar e que procura preservar a própria existência antes de reconhecer plenamente a existência do outro.
Um bebé recém-nascido ainda não possui uma narrativa sobre si mesmo. Ele não sabe quem é, não compreende a passagem do tempo e não possui uma identidade autobiográfica. Contudo, ele já possui uma forma elementar de experiência: sente desconforto, prazer, fome, dor, segurança e ameaça.
Essa realidade aproxima-se daquilo que Damásio chama de sentimentos homeostáticos. Antes de existir um "eu penso", existe um sistema biológico que constantemente informa o cérebro sobre as condições internas do corpo.
A consciência começa, portanto, como uma espécie de diálogo silencioso entre o organismo e o cérebro. O corpo informa; o cérebro interpreta; o organismo ajusta-se para continuar vivo.
O protoego seria essa primeira camada da consciência: não uma consciência reflexiva, mas uma consciência biológica da própria existência.
A consciência e a analogia com o computador
Uma comparação com a informática ajuda-nos a compreender esse processo.
Quando ligamos um computador, aquilo que aparece no ecrã — imagens, vídeos, músicas, textos e programas — representa apenas a última camada de uma sequência extremamente complexa de acontecimentos.
Antes de surgir uma imagem, milhões de transístores começam a alternar estados eléctricos. O processador executa instruções básicas, a memória é inicializada, os dispositivos são reconhecidos e o sistema operativo organiza os recursos disponíveis.
Nenhum transístor contém uma fotografia. Nenhum circuito contém uma música. Nenhuma peça isolada sabe o que é um texto.
Contudo, quando todos esses elementos trabalham em conjunto dentro de uma arquitectura organizada, surgem propriedades superiores que não existiam nos componentes individuais.
A imagem aparece como resultado da organização.
A música aparece como resultado da organização.
O ambiente digital aparece como resultado da organização.
A consciência humana pode seguir um princípio semelhante.
Nenhum neurónio isolado possui uma memória, uma emoção ou uma ideia. Nenhuma célula nervosa contém a experiência do "eu". Entretanto, quando bilhões de neurónios estabelecem relações complexas entre corpo, ambiente, memória e outros cérebros humanos, surge uma realidade superior: a experiência consciente.
A consciência seria, então, uma propriedade emergente de um sistema extremamente organizado.
O cérebro humano: um hardware que se transforma
Existe, porém, uma diferença essencial entre o cérebro e os computadores actuais.
Um computador tradicional possui uma estrutura física relativamente estável. O sistema operativo pode receber actualizações, mas o hardware permanece praticamente o mesmo.
O cérebro humano funciona de maneira diferente.
Ele transforma-se continuamente através das experiências vividas. Cada aprendizagem modifica conexões neuronais; cada relação afectiva deixa marcas; cada experiência emocional reorganiza circuitos.
Eric Kandel demonstrou que a aprendizagem produz alterações físicas no sistema nervoso, revelando que a memória não é apenas uma informação armazenada, mas uma transformação material do próprio cérebro.
O cérebro humano não é simplesmente uma máquina que recebe programas. É uma máquina viva que modifica a própria arquitectura enquanto aprende.
É por isso que a infância possui uma importância extraordinária. Os primeiros anos da vida não são apenas uma fase de acumulação de conhecimentos, mas o período em que o próprio sistema de interpretação do mundo está a ser construído.
O monocogno: a arquitectura inicial da mente
É dentro dessa perspectiva que surge a hipótese que denomino monocogno.
O monocogno seria o princípio pelo qual as primeiras estruturas cognitivas consolidadas passam a orientar a forma como o indivíduo interpreta novas experiências.
O cérebro infantil possui uma plasticidade extraordinária. Ele consegue absorver sons, padrões linguísticos, emoções e comportamentos com uma facilidade impressionante. Contudo, à medida que essas estruturas se consolidam, elas passam a funcionar como referências para compreender o mundo.
Isso não significa que o ser humano deixa de aprender, mas que novas aprendizagens tendem a ser assimiladas com maior facilidade quando possuem ligação com estruturas já existentes.
O cérebro procura integrar a novidade dentro de modelos previamente construídos.
É semelhante ao funcionamento de um sistema informático. À medida que novos programas são instalados, aumenta a complexidade do sistema e torna-se necessário manter compatibilidade entre os diferentes componentes. Uma alteração profunda pode exigir uma reorganização maior.
Da mesma forma, uma mente formada dentro de determinados padrões culturais, linguísticos e emocionais tende a interpretar novas experiências através dessas estruturas anteriores.
O monocogno seria, portanto, uma tendência natural de organização cognitiva: uma forma pela qual o cérebro preserva estabilidade enquanto continua a aprender.
Do protoego ao Homo sensibilis
Se acompanharmos o desenvolvimento humano, percebemos uma sequência progressiva.
Primeiro existe o organismo que sente.
Depois surge o organismo que reconhece os próprios estados internos.
Em seguida aparece o vínculo afectivo, que ensina o cérebro a regular emoções.
Depois surge a linguagem, que transforma experiências em símbolos.
Finalmente emerge a consciência narrativa: a capacidade de dizer "eu sou", "eu fui" e "eu posso tornar-me".
A personalidade humana não nasce pronta. Ela é construída através da integração entre corpo, afecto, linguagem, memória e cultura.
Por isso, o ser humano não deve ser compreendido apenas como Homo sapiens. A inteligência explica a nossa capacidade de resolver problemas, criar ferramentas e desenvolver ciência, mas não explica completamente a nossa capacidade de amar, cuidar, sofrer pelo outro e atribuir significado à existência.
Essa dimensão pertence ao Homo sensibilis.
O Homo sensibilis é aquele que sente antes de pensar, que recebe o mundo antes de explicá-lo e que transforma experiências internas em cultura, conhecimento e humanidade.
A razão é uma das maiores conquistas humanas, mas ela nasceu sobre uma base mais antiga: a sensibilidade.
Antes da filosofia, houve a dor.
Antes da ciência, houve a curiosidade.
Antes da linguagem, houve o vínculo.
Antes do pensamento, houve o sentir.
Talvez a maior descoberta sobre a consciência seja perceber que ela não começou quando o ser humano aprendeu a pensar sobre o mundo, mas quando um organismo vivo começou, pela primeira vez, a sentir a própria existência.
E desse primeiro sentir nasceu tudo aquilo que hoje chamamos humanidade.
Referências bibliográficas
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