Nostalgia

 




Há muitos anos, éramos poucos os angolanos a viver em cidades de betão. Quase tudo era mata e bairros periféricos, um mundo à parte onde a vida pulsava num ritmo diferente. Sonhávamos em ir pra cidade, sim, mas vivíamos a nossa vida normalmente, inteiros no nosso chão. Não havia energia eléctrica. A luz tinha hora marcada: o gerador acordava às 18 horas e adormecia às 21, por causa do combustível. E nesse intervalo, a noite era nossa.


Não havia dinheiro para comprar brinquedos, por isso, as nossas mãos aprendiam cedo a arte de criar. Carros de latas de conserva, brinquedos de argila, casas de areia, carros e bonecos de lodo. A arquitetura evoluiu para as bases, pequenas tendas onde cachos de papelão uniam pilhas eléctricas e as lâmpadas de Natal roubavam a escuridão. Éramos engenheiros de pneus com olhos e paus, empurrados como veículos. Cirurgiões de rádios e materiais estragados apanhados no lixo, que consertávamos e transformávamos em estúdios musicais para gravar músicas em cassetes, sob a batida de latas e bidões, que ecoava pelas ruas e tornava atraentes as nossas paradas de Natal.


Apanhávamos quadros — os esqueletos de bicicleta — para montar, porque os nossos pais não compravam esses artigos. Acendíamos fogueiras com latas de ferro, misturando água, petróleo e pequenos papéis lá dentro, para que a chama durasse mais tempo. Jogávamos à escondida — ou, como chamávamos, bica bidões. Jogávamos salva ova. Desafiávamos as mulheres com em zera mete e tira de cordões. Nos tempos de chuva, jogávamos semalha e os mais craques davam muitos capotes. Criávamos papagaios com sacos plásticos e bordões; quem tivesse o maior buludo era famoso, ou quem enviasse o seu papagaio mais alto no céu. Havia uma brincadeira para cada momento, para cada estação. E éramos muito felizes.


Não fazíamos muitas cobranças aos nossos pais. Não nos comparávamos com as crianças da cidade porque, apesar de acharmos a vida delas um máximo, estávamos contentes e satisfeitos com a nossa. Quando o chinelo rebentava, a solução era simples: colocávamos arame ou o plástico azul da pilha eléctrica grande. Usar umas havaianas era um luxo supremo. As roupas eram simples e todos nos sentíamos iguais. Até o filho de alguém de classe média sentia-se prisioneiro ao nosso lado, cativo da nossa liberdade.


No bairro, todos estudávamos na mesma escola e fazíamos as tarefas juntos. Quem estudava noutra escola sentia-se desprivilegiado, o que acontecia com quem tinha maior poder financeiro. Comíamos batata doce assada com jinguba, bombó frito com jinguba, pastéis de trigo com peixe no interior — nós não sabíamos o que sabia o rissol. Comíamos arroz branco cheio de óleo com chá de pacote ou de caxinde, todos felizes, mesmo com a boca cheia de gordura. Era muito gostoso. Comíamos todos sentados no chão, de cuecas, os pés com baúca, e estava tudo bem.


A vida era comunitária. Quando os nossos pais iam trabalhar, a chave de casa ficava com o vizinho mais velho, que cuidava de tudo como se fosse dele, porque era. Era família. E podia nos bater se nos comportássemos mal e, caso nos queixássemos, os nossos pais acrescentavam-nos na surra. 

Os nossos professores eram muito rígidos, batiam-nos com o apagador mandando juntar os dedos para aumentar a dor; esse castigo era conhecido como jingubinha. Ajoelhávamos em pedrinhas, batiam com varas e chamavam-nos de burros. Em casa, puxavam-nos as olheiras até ficarem avermelhadas (mesmo que a pessoa fosse tão escura).


Tínhamos um medo respeitoso do sobrenatural. Evitávamos receber coisas de estranhos para não receber feitiço. Todos os que tinham cabelo branco eram para nós muito sábios e profundamente respeitados. Se víssemos dinheiro no chão, tínhamos de lhe cuspir; se borbulhasse, era de feitiço e tínhamos de o jogar fora, do contrário, podíamos gastar.


Quando começaram a surgir os supermercados — o "nosso super" —, íamos lá só para estar, para aproveitar a frescura do ar condicionado, um paraíso gelado. Ao assistir às telenovelas, fechávamos os olhos ou saíamos da sala nas cenas de beijo ou sexo. Lembro-me de que os adultos foram reclamar com a direcção da TPA e pararam a emissão da telenovela Malhação porque estava a ensinar os jovens a namorar cedo. As moças não usavam cremes; muitas usavam óleo vegetal de cozinha ou óleo de palma para parecerem atraentes. As tranças eram mesmo bobe, de mão, virada, caropito, linha e outras mais, e todas se sentiam lindas. Comíamos muita verdura, frutas, legumes e feijões. Muitas vezes, roubávamos as frutas nas árvores dos vizinhos, e o sabor tinha o tempero da aventura.


Nesses períodos, raramente ficávamos doentes. E quando tal ocorria, as nossas avós tratavam-nos com as suas ervas, e ficávamos bons e saudáveis. Ir ao hospital era privilégio de rico; também, não havia hospitais no bairro. Havia doenças que chamávamos de "doenças dos brancos", porque nunca nos apanhavam. Mas hoje, essas ditas doenças dos brancos pegaram-nos também. Este lamento não é apenas uma sensação. A transição que vivemos está documentada: à medida que as sociedades abandonam dietas tradicionais e modos de vida activos, as doenças crónicas não transmissíveis suplantam as infecciosas. Em Angola, a urbanização acelerada trouxe uma alteração profunda. Um estudo de base comunitária na capital revelou que 45,4% da população adulta de Luanda sofre de hipertensão arterial, um valor que é quase o dobro da prevalência estimada para zonas rurais. O mesmo se observa na África Subsariana e no mundo, onde a obesidade infantil, impulsionada pelo consumo de alimentos ultraprocessados e pelo sedentarismo, aumentou de forma alarmante, com o número de crianças menores de 5 anos com excesso de peso a subir quase 24% desde o ano 2000. Estamos a imitar os hábitos deles, a viver como eles, a receber as suas ferramentas, as suas necessidades e a sua visão de mundo. Abandonamos a nossa maneira de tratar as doenças e a nossa maneira de olhar o mundo. Ficamos aculturados e pensamos que evoluímos. Mas não. A industrialização de tudo é, em muitos sentidos, danosa. A ciência confirma o que a nossa memória sente: a adopção de dietas ocidentais, ricas em gorduras saturadas, açúcares e sal, está directamente ligada ao aumento global de cânceres colorretais, doenças cardiovasculares e diabetes tipo 2, inclusive em populações geneticamente adaptadas a outros regimes alimentares.


Hoje, estamos a tornar-nos pais. E lamentamos, porque os nossos filhos serão nativos digitais, viverão uma vida plástica, artificial e ilusória. Serão incapazes de criar com as mãos aquilo que nós criávamos. E nós mesmos, tomados por um medo novo, teremos medo de lhes permitir ser um pouco do que fomos. Tentaremos cercá-los de cuidados para os proteger daquilo que nos ensinaram ser mal, mas que, no fundo da nossa alma, sabemos que foi a única e mais pura felicidade que Deus nos concedeu até hoje.



Fabio de Sousa Candido

Professor do ensino geral, profissional de merchandising e trade marketing, psico

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