O Fim da Ilusão: Prosperidade, Geopolítica e a Esperança que Permanece
Imagens do fim de todas as coisas
Quando imagino o fim, não consigo deixar de visualizar cenas de agonia silenciosa: pessoas que depositaram toda a sua esperança nas estruturas deste mundo, percebendo, tarde demais, que as suas muitas riquezas não têm qualquer poder diante do último dia da ira. É uma imagem dura, mas necessária. Vivemos tempos em que a instabilidade geopolítica sacode nações e a sensação de insegurança se espalha como fumaça sobre os continentes. E, em meio a tudo isto, uma pergunta se levanta: onde temos firmado a nossa esperança?
Não sou contra a prosperidade. Longe disso. O próprio Jesus declarou que veio para que tenhamos "vida plena" (João 10:10). A questão não está na bênção, mas no objecto da nossa confiança. A prosperidade que visa apenas o lucro, que se fecha em si mesma e ignora o próximo, é ilusória. Ela constrói castelos de areia sobre terreno movediço.
O salmista Asafe entendeu bem esta verdade, embora tenha passado por um processo doloroso até chegar a ela. No Salmo 73, ele confessa ter invejado a prosperidade dos ímpios. Ele observava que eles não passavam por crises, não estavam sujeitos aos fardos comuns da humanidade, pareciam imunes às doenças e os seus corpos se mantinham sempre vigorosos. Enquanto os justos enfrentavam lutas diárias, os ímpios floresciam como árvores frondosas. Asafe quase escorregou na sua fé ao contemplar essa aparente injustiça.
Mas tudo mudou quando ele entrou no Santuário de Deus. Ali, os seus olhos foram abertos para enxergar além da superfície. Ele compreendeu que os ímpios estavam numa estrada descendente, caminhando sobre areia movediça. A prosperidade deles era temporária, limitada a esta noite de pecado que vivemos. Dentro em breve, quando a aurora eterna despontar, eles já não serão vistos. O que parecia firme se desfaz como névoa diante do sol.
Esta reflexão de Asafe ganha contornos ainda mais urgentes quando olhamos para o cenário geopolítico actual. Nas Américas, assistimos a nações divididas, crises institucionais, desigualdades sociais profundas e líderes que oscilam entre promessas de prosperidade rápida e decisões que agravam tensões internas e externas. No Médio Oriente, o cenário é de feridas abertas há décadas: conflitos que se renovam, acordos de paz frágeis como papel, e populações inteiras vivendo sob a sombra da guerra e da incerteza. São regiões que concentram riquezas imensuráveis — petróleo, gás, rotas comerciais estratégicas — e, ainda assim, a paz parece um horizonte distante.
E o que isto tem a ver com Angola? Tudo.
Vivemos num mundo globalizado. O que acontece no outro lado do planeta ecoa na nossa economia, nos preços dos combustíveis, na inflação dos alimentos, na estabilidade cambial. As tensões geopolíticas afectam directamente o nosso dia a dia. Mas há um impacto ainda mais profundo: o espiritual. Angola não está imune à sedução da prosperidade sem alma. O desejo de enriquecimento rápido, a busca por atalhos, a corrupção que corrói estruturas, a inveja daqueles que aparentemente "venceram na vida" sem qualquer compromisso com a ética ou com Deus — tudo isto são armadilhas da areia movediça que Asafe enxergou.
A verdadeira lição que extraímos do Salmo 73 é que a estabilidade não está nas riquezas, nem nas alianças políticas, nem nos acordos internacionais. Tudo isto é passageiro. Os impérios sobem e descem. As nações se levantam e caem. Os líderes passam. Mas uma coisa permanece: a presença de Deus para aqueles que n'Ele confiam.
Ao final da sua jornada de angústia e revelação, Asafe declara: "A quem tenho nos céus senão a ti? E na terra, nada mais desejo além de estar junto a ti! (...) Eu, porém, tenho por felicidade estar na presença de Deus" (Salmos 73:25, 28).
Que declaração poderosa! Ele não despreza a terra, mas reconhece que a sua verdadeira felicidade transcende as circunstâncias. A sua confiança está depositada no Eterno, e é dessa confiança que brota o desejo de proclamar as obras de Deus.
Conclusão
Para nós, angolanos, que temos enfrentado desafios históricos e ainda buscamos o nosso lugar no concerto das nações, esta mensagem é um alerta e um consolo. Alerta para não colocarmos a nossa esperança nas riquezas passageiras, nas modas ideológicas importadas ou nos líderes que prometem o que não podem cumprir. Consolo porque, em meio às incertezas geopolíticas e às crises que nos rodeiam, podemos firmar os pés na Rocha que não se abala.
Que possamos, como Asafe, entrar no Santuário de Deus e ter os nossos olhos abertos. Que possamos enxergar além da aparência de prosperidade dos ímpios e compreender que a verdadeira felicidade está em estar na presença d'Aquele que governa as nações e sustenta a nossa alma. E que, firmados nessa esperança, sejamos agentes de transformação num mundo que tanto precisa da luz do Evangelho.
A quem temos nos céus, senão a Ti? E na terra, nada mais desejamos além de estar Contigo.



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