Amenorreia: Uma Abordagem Integrativa entre Ginecologia e Psicologia Clínica
Introdução: Para Além da Ausência Menstrual
A menstruação, frequentemente vista apenas como um fenômeno biológico cíclico, representa na realidade um sinal vital complexo do sistema endócrino e reprodutivo feminino. Sua ausência prolongada — a amenorreia — não constitui uma doença em si, mas um sintoma, um sinalizador de que algo no intricado equilíbrio do organismo requer atenção. Quando uma mulher que menstruava regularmente passa a ter apenas um ciclo por mês, ou deixa de menstruar por três ou mais meses consecutivos, abre-se um campo de investigação que exige um olhar integrado. Como observa a ginecologista Jerilynn C. Prior, "o ciclo menstrual é um marcador de saúde geral, e sua interrupção pode ser a primeira manifestação de desequilíbrios que vão desde o estresse psicossocial até doenças endócrinas graves".
Este artigo propõe uma análise profunda da amenorreia, unindo as perspectivas da Ginecologia Endocrinológica e da Psicologia Clínica. Partimos do princípio de que a tríade mente-corpo-ambiente é indissociável, e que a compreensão plena desse sintoma exige transcender a mera busca por uma disfunção orgânica, considerando a mulher em sua totalidade existencial.
1. A Fisiologia do Ciclo Menstrual: O Equilíbrio Preciso
Para compreender a amenorreia, é fundamental revisar a orquestra hormonal que rege o ciclo. O eixo hipotálamo-hipófise-ovário funciona como um sistema de comando hierárquico e retroalimentado. O hipotálamo secreta o GnRH (hormônio liberador de gonadotrofinas), que estimula a hipófise a produzir o FSH (hormônio folículo-estimulante) e o LH (hormônio luteinizante). Estes, por sua vez, atuam nos ovários para estimular a maturação folicular, a ovulação e a produção de estrogênio e progesterona.
"Qualquer interferência em qualquer nível desse eixo — seja por um tumor, por um déficit nutricional ou por um influxo neuroquímico derivado do estresse — pode silenciar o sistema, levando à amenorreia", explica o Dr. John R. G. Challis em Endocrinologia Reprodutiva.
A amenorreia é classificada em:
· Primária: Quando a menarca (primeira menstruação) não ocorre até os 15 anos.
· Secundária: Quando há cessação da menstruação por pelo menos três meses em uma mulher que já menstruava. É sobre esta que nos debruçaremos.
2. Etiologia da Amenorreia: Uma Visão Multidimensional
As causas são diversas e frequentemente inter-relacionadas, exigindo uma investigação cuidadosa.
2.1. Causas Fisiológicas e Estruturais
· Gravidez: Sempre a primeira hipótese a ser descartada em mulheres sexualmente ativas. É a causa mais comum e fisiológica de amenorreia secundária.
· Amamentação: A sucção frequente mantém altos níveis de prolactina (hiperprolactinemia fisiológica), que suprime a ovulação. Conforme nota a Dra. Kathryn L. Reed, "a amenorreia lactacional é um exemplo perfeito de como um comportamento natural modula a função reprodutiva".
· Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP): Caracterizada por anovulação crônica, hiperandrogenismo e ovários morfologicamente alterados. A amenorreia ou oligomenorreia (ciclos muito espaçados) é um de seus sinais cardinais.
· Falência Ovariana Prematura (FOP): A perda da função ovariana antes dos 40 anos.
· Sinéquias Uterinas (Síndrome de Asherman): Formação de aderências no interior do útero, geralmente pós-curetagem, que impedem a formação do endométrio.
· Tumores da Hipófise (ex.: Prolactinoma): Secretam prolactina em excesso, interrompendo o eixo hormonal.
2.2. Causas Relacionadas ao Estilo de Vida e ao Ambiente
· Baixo Peso Corporal e Deficiência Nutricional: Um índice de massa corporal (IMC) muito baixo ou uma drástica redução de peso sinalizam para o hipotálamo que o ambiente é de "escassez", impróprio para uma gestação. A leptina, hormônio derivado do tecido adiposo, é um mediador crucial neste processo.
· Exercício Físico Exaustivo: Comum em atletas de elite, combina o gasto energético extremo com o estresse físico. O termo "Tríade da Mulher Atleta" descreve a interligação entre distúrbios alimentares, amenorreia e osteoporose.
· Estresse Psicológico e Emocional: Aqui reside uma das interfaces mais ricas para a análise interdisciplinar.
3. A Perspectiva Psicossomática: Quando a Mente Silencia o Útero
A Psicologia Clínica contribui com uma compreensão vital: o sistema límbico (centro das emoções) e o hipotálamo (regulador hormonal) estão anatomicamente e funcionalmente interligados. O estresse crônico, seja por ansiedade generalizada, luto, pressão profissional ou trauma, ativa o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA), aumentando o cortisol.
O psiquiatra George Chrousos, pioneiro na pesquisa do estresse, descreve este estado como "Supressão do Eixo Reprodutivo por Estresse". O cortisol elevado inibe a pulsatilidade do GnRH no hipotálamo. Em termos psicodinâmicos, alguns autores, como a psicóloga Elisabeth Roudinesco, sugerem que a amenorreia pode simbolicamente representar uma "recusa inconsciente" a uma feminilidade percebida como conflituosa, uma "fuga para frente do corpo" diante de demandas existenciais esmagadoras.
Amenorreia Funcional Hipotalâmica (AFH): É o diagnóstico que encapsula essa interação. Nenhuma causa orgânica é encontrada; a amenorreia é o resultado final de uma confluência de fatores como estresse, perda de peso moderada e exercício excessivo. O tratamento exige uma abordagem que vá muito além dos hormônios.
3.1. O Impacto Psicológico da Amenorreia
A amenorreia não é apenas um sintoma de origem psicológica; ela também gera profundo sofrimento psicológico. A mulher pode experimentar:
· Medo sobre sua fertilidade e saúde.
· Sensação de "anormalidade" e descontrole sobre o próprio corpo.
· Impacto na sexualidade e na imagem corporal.
· Angústia em casos de desejo reprodutivo adiado.
4. Abordagem Diagnóstica e Terapêutica Integrada
A investigação segue uma lógica escalonada:
1. História Clínica Minuciosa: Inclui padrão menstrual anterior, hábitos de vida, dieta, exercício, estressores, história sexual e uso de medicações.
2. Exame Físico e Ginecológico Completo.
3. Testes Laboratoriais: Beta-hCG (gravidez), dosagens de FSH, LH, prolactina, TSH, estradiol. A avaliação da reserva ovariana pode ser necessária.
4. Estudos de Imagem: Ultrassom pélvico e, se indicado, ressonância magnética de sela túrsica (hipófise).
O Tratamento Multidisciplinar:
· Ginecológico/Enderócrino: Focado na causa. Pode variar desde a simples reposição hormonal cíclica (para proteger o endométrio e os ossos) até o uso de agonistas dopaminérgicos para a hiperprolactinemia, ou indutores da ovulação para quem deseja engravidar.
· Nutricional: Fundamental nos casos relacionados ao peso. A dietética trabalha para restaurar um equilíbrio energético positivo.
· Psicológico (Psicoterapia): É o pilar para os casos com forte componente de AFH ou sofrimento emocional. Modalidades como a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) são eficazes para manejar o estresse e modificar padrões disfuncionais de pensamento e comportamento. A Psicoterapia Psicodinâmica pode ajudar a explorar conflitos inconscientes relacionados à feminilidade, à maternidade ou à autoimagem.
A psicóloga clínica Mara Lins enfatiza: "A psicoterapia na amenorreia funcional visa ajudar a mulher a decodificar a mensagem do seu corpo. O que este silêncio menstrual está tentando comunicar? Que aspectos da vida estão tão sobrecarregados que o corpo decidiu 'desligar' a função reprodutiva?".
Conclusão: O Diálogo Necessário entre Especialidades
A amenorreia secundária é um sintoma biopsicossocial por excelência. Ela desafia o médico a não se limitar a prescrever hormônios e desafia o psicólogo a considerar a biologia do estresse. O manejo ideal exige uma colaboração franca entre o ginecologista e o psicólogo clínico, com apoio de nutricionistas e endocrinologistas quando necessário.
O objetivo final não é apenas o retorno do fluxo menstrual, mas a restauração do equilíbrio global da mulher. É promover que ela encontre, nas palavras da filósofa Donna Haraway, uma "saúde integrada", onde o corpo não seja um inimigo silenciado, mas um aliado que fala — e que, quando ouvido e cuidado em sua totalidade, pode reencontrar seu ritmo natural.
Referências Bibliográficas
1. AMERICAN COLLEGE OF OBSTETRICIANS AND GYNECOLOGISTS (ACOG). Amenorrhea: Management of Adolescents and Adults. Practice Bulletin No. 243, 2022.
2. CHROUSOS, G. P. Stress and disorders of the stress system. Nature Reviews Endocrinology, 5(7), 374-381, 2009. (Artigo seminal sobre a supressão reprodutiva pelo estresse).
3. GOLDEN, N. H.; CARLSON, J. L. The pathophysiology of amenorrhea in the adolescent. Annals of the New York Academy of Sciences, 1135: 163-178, 2008. (Aborda a tríade da mulher atleta e aspectos nutricionais).
4. PRIOR, J. C. Ovulatory disturbances: they do matter. Canadian Journal of Diagnosis, 14: 64-80, 1997. (Texto clássico que defende o ciclo menstrual como marcador de saúde).
5. ROUDINESCO, E. Por que a psicanálise? Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2000. (Oferece uma base para a interpretação psicodinâmica dos sintomas corporais).
6. SANTORO, N.; LASLEY, B.; MCCONNELL, D. et al. Body size and ethnicity are associated with menstrual cycle alterations in women in the early menopausal transition: The Study of Women's Health Across the Nation (SWAN) Daily Hormone Study. The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, 89(6): 2622-2631, 2004. (Estudo epidemiológico importante).
7. WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Medical Eligibility Criteria for Contraceptive Use. 5th ed., 2015. (Inclui critérios para avaliação do ciclo menstrual).
Fabio de Sousa Candido, pesquisador bíblico, psicólogo clínico, trade marketing, professor, gestor e terapeuta.
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