A Percepção Sensorial
Segundo Bock, Furtado and Teixeira (1999) Certo rei aborrecido com a vida
monárquica e pelas recepções formais, observou um aldeão da classe média pela
janela e especulou sobre como sua vida era bem entediante, cheia de
resposnabilidades e vazia pela falta de sentido. Então, pensou em ajudá-lo a
melhor sua vida. “Que tal conservá-lo em uma gaiola, como os animais no
zoológico?”, pensou o rei. No dia seguinte chamou um psicólogo e explicou-lhe
sua ideia e convidou-o a observar a experiência. Em seguida mandou trazer a
gaiola e o homem da classe média foi posto lá. No princípio o homem ficou apenas
confuso, reptindo ao psicólogo que devia pegar um autocarro e ir trabalhar para
não chegar tarde ao serviço. Quando percebeu o que estva ocorrendo, protestou:
“O rei não pode fazer-me isso!” Continuou reclamando por uma semana em voz alta
e cheia de raiva. Quando o rei se aproximava, o prisioneiro ficava mais furioso,
mas o rei dizia-lhe: “Você é alimentado muito bem, tem uma boa cama, não precisa
trabalhar. Estamos cuidando de você. Por que reclama?” Dias depois, as objecções
diminuiram. Já não falava nada. O psicólogo, porém, anotava tudo o que ocorria e
notava que seus olhos estavam carregados de ódio. Sempre que ouvia que era bem
cuidado e que tinha alimento e abrigo, e que este era seu destino e cabia-lhe
aceitá-lo, ele aparentava uma pausa – como se o homem perguntasse a si mesmo se
seria verdade ou não. Tempos depois, um grupo de professores foi vê-lo e ele os
recebeu cordialmente e explicou-lhes que escolhera este modo de viver; que havia
grandes vantagens em estar protegido. Nos dias seguintes, quando o rei
aproximava-se dele, detrás da gaiola, ele inclinava-se e agradecia pela
gentileza do rei em dar-lhe alimento e abrigo. Mas quando o rei ausentava-se
mostrava uma atitude mal-humorada. Quando lhe entregavam a comida e deixava
cair, desculpava-se por ter sido desajeitado. Deixou de apresentar complicadas
teorias filosóficas e passou a dizer apenas: “É o destino”, ou: “É”. Um dia o
psicólogo percebeu que o rosto do homem não apresentava expressão alguma, o
sorrizo tornou-se vazio, sem sentido, como careta de uma criança aflita com
gases. Ele comia e trocava algumas palavras com o psicólogo. Muitas vezes,
embora fitando os olhos ao psicólogo, parecia não vê-lo e seu olhar era vago e
distante. Deixou de usar a palavra “eu”. Aceitou a gaiola. Não sentia mais ira,
raiva, não racionalizava. Estava louco (pp. 160-162). Como podemos ver nesta
história, muitas coisas podem influenciar a percepção de nós mesmos e do mundo
que nos rodeia. A percepção tem vários aspectos e vários órgãos colaboram para
permitir a assimilação e interpretação do exterior. Assim, formamos as bases da
nossa percepção, vinculando-as às experiências anteriores e construindo nossa
cosmovisão. Apresentaremos neste trabalho, além destes conceitos, os elementos
que prejudicam ou manipulam a nossa capacidade de perceber.
ETIMOLOGIA E CONCEITO DE PERCEPÇÃO
Antes de conceituarmos o termo “percepção” vamos apresentar sua etimologia. Ela
é de origem latina e deriva de percetione, que pode ser traduzido como o acto,
efeito ou capacidade de entender o sentido de algo que assimilamos pelos
sentidos. Podemos definir percepção como a capacidade cognitiva de assimilar os
estímulos sensoriais a partir de antecedentes das experiências passadas. É
mediante ela que organizamos e interpretamos as impressões sensoriais para dar
significado ao meio que nos circunda. Esta capacidade cognitiva é muito crucial
porque a usamos diariamente para identificar tudo à nossa volta. Ela é dinâmica,
podendo ser melhorada por meio de exercícios adequados. A percepção tem duas
fases: a sensorial e a intelectual. A primeira fase acontece quando, pelos
órgãos sensoriais, captamos as informações do exterior e assimilamos ela e a
enquadramos ao nosso interior. A segunda é a fase em que o cérebro utiliza as
informações sensoriais (que não são exactas e apresentam algumas incoerências ou
distorções) e as reorganiza, de modo a compreendermos como é em realidade. As
duas complemetam-se, pois, como veremos, as sensações não são capazes de
apresentar uma visão real do mundo, tal como o conhecemos. Apenas o cérebro
humano pode fazer o enquadramento adequado e o ajuste requerido para
construirmos a nossa realidade com as informações sensoriais. PERCEPÇÃO EM
FILOSOFIA Mesmo antes da ascensão da Psicologia como ciência a Filosofia já
debatia-se a respeito da percepção. No mundo filosófico, como é de esperar, não
há consenso em relação ao conceito de percepção, mas, ainda assim, podemos
apresentar exemplos da visão filosófica sobre a percepção. Descartes considerou
a percepção como qualquer acto de inteligência, ou seja, tudo o que é feito pela
inteligência constitui uma percepção. Assim, podemos perceber (ao menos na visão
de Descartes) que, se a percepção é fruto da inteligência, ela está subordinada
a ela e sem ela não haveria percepção alguma. Leibniz, por sua vez, considerou a
percepção como um estado transitório que envolve diversos processos psíquicos.
Mas, de modo geral, podemos definir a percepção como a capacidade do espírito
que ajuda o homem a captar, de forma intuitiva e inferencial ou indutiva, os
estímulos exteriores.
TIPOS DE PERCEPÇÃO
A percepção tem sido objecto de estudo, há muito tempo, da Psicologia,
Neurociência e das Ciências Cognitivas. Ela é muito associada à inteligência,
pois sem ela não seríamos capazes de adaptar-nos ao nosso meio ambiente. Visto
que, como atestam pesquisas recentes, tanto a inteligência como a personalidade
são multifacetais, a percepção não poderia apresentar-se apenas em um prisma,
mas deve estar constituída de uma maneira multifacetal. Assim, a seguir,
apresentaremos as várias facetas ou tipos de percepção: Percepção Visual Os
olhos são constituídos por células fotorreceptoras que permitem a recepção de
estímulos luminosos, transmitindo assim estímulos nervosos ao sistema nervoso.
Estas células encontram-se na retina (uma camada de revestimento interno do
olho, e são dois tipos: os bastonetes e os cones). Os bastonetes são muito
sensíveis a mudanças na intensidade da luz, mas não distinguem cores, sendo esta
uma função dos cones. Os raios luminosos que atravessam os olhos são assimilados
pela pupila. A pupila controla a quantidade de luz que penetra no olho. Em
lugares escuros ela dilata, mas em presença de muita luz contrai-se. Após
atravessarem a pupila, os raios luminosos atingem o cristalino. O cristalino é
como uma lente que projecta os raios luminosos no fundo dos olhos, onde estão os
bastonetes e cones. O cristalino apresenta as imagens em posições erradas, sendo
necessário o auxílio do sistema nervo central para corrigir a posição das
imagens.
Percepção Auditiva
Os ouvidos são os órgãos responsáveis pela audição e pelo equilíbrio. Em seu
interior há células mecanorreceptoras (captam estímulos mecânicos e traduzem os
impulsos nervosos). O som é uma vibração originada por mudanças na pressão,
propagadas através de meios elásticos. As ondas sonoras são captadas pelo ouvido
externo, constituído pela orelha e pelo canal auditivo externo. No fim do
conduto auditivo há uma membrana que apresenta vibrações de acordo com a
intensidade e a frequência do som, o tímpano. Essas vibrações são transmitidas
para um conjunto de pequenos ossos articulados (martelo, bigorna e estribo)
situados no ouvido médio. As mesmas vibrações promovem a passagem do som do
ouvido externo para o interno, agindo sobre a janela oval. Em seu interior há um
líquido conhecido como perilinda (onde encontram-se as células receptoras).
Estas células estão equipadas para captar as vibrações do meio líquido,
convertendo-as em impulsos nervosos levados ao sistema nervoso central.
Percepção Olfativa
O nariz é o órgão responsável pelo olfato. No interior da cavidade nasal existe
um tecido especializado (epitélio olfativo) que contém milhares de receptores
conhecidos como células olfativas. Estas células olfativas possuem pélos que
captam moléculas volácteis ou outras substâncias dispersas no ar inspirado. Como
reacção a estes estímulos, são levados ao sistema nervoso central e convertem-se
em sensações.
Percepção Táctil
A pele é o maior órgão do corpo humano e, além de proteger e cobrir o corpo, é
também responsável pelo tacto. É por seu intermédio que compreendemos o calor e
a dor. Em sua superfície há milhares de células, dentre elas, encontramos os
corpúsculos de Pacini (receptor que capta estímulos mecânicos, como movimento ou
alterações na pressão, e os transmite, em forma de impulsos eléctricos, para o
sistema nervosos central).
Percepção Gustativa
A língua possui receptores de papilas gustativas responsáveis pelo paladar. As
papilas são quimiorreceptores, ou seja, estão especializadas em detectar a
presença de substâncias químicas. Existem papilas gustativas especializadas na
percepção de quatro sabores básicos: doce, amargo, azedo e salgado. Cada tipo de
papila localiza-se numa região específica da língua. A combinação de estímulos
nesses quatro tipos de receptores transmite ao sistema nervoso informações
acerca, por exemplo, do sabor dos alimentos que ingerimos. Poderíamos também
mencionar a percepção espacial (percepção das distâncias e do tamanho dos
objectos), temporal (percepção das durações, ritmos, simultaneidade e ordem
temporal), musical (percepção do som, ritmo e melodia, como a identificação de
acordes, de intervalos, de solfejos, etc.) e extra-sensorial (captação de
informações por vias anormais e incomuns, como a telepatia [transferência de
pensamentos entre duas pessoas], clarividência [ver claramente à longa
distância] e premonição ou precognição [conhecimento do que vai ocorrer no
futuro]). Mas vamos ilustrar mais um tipo de percepção - a social - que pode ser
definida como a percepção dos géneros, raças, nacionalidade, sexualidade, etc.:
Percepção Social
A percepção social estuda a forma como formamos as impressões sobre as outras
pessoas e sobre como fazemos inferências sobre elas. É através desses aspectos
que podemos dar sentido ao mundo social que nos rodeia, é também através dela
que podemos ter a capacidade de formar impressões de maneira rápida e objectiva
sobre esse mundo. O estudo da percepção é de suma importância porque o
comportamento humano é embasado no tipo de interpretação que ele faz da
realidade e não da realidade em si. Por esta razão, a percepção do mundo é algo
individual. Ela pode ser associada a imagem que se faz do outro, do conteúdo da
memória, conceitos de valor e normas socioculturais, ou seja, a percepção está
relacionada aos valores específicos do indivíduo ou grupo. A percepção de certos
aspectos relacionados a características humanas também pode ser constituída
socialmente. Questões como o género, nacionalidade, sexualidade e outras, também
podem ser interferidas por uma forma de percepção que é constituída socialmente.
Um dos estudos mais significativos foi o efectuado pelo historiador brasileiro
José D’Assunção Barros (1967) que analisou a construção social da percepção
relativamente a certos aspectos como as diferenças de sexualidade ou as
diferenças étnicas. Sua mais abrangente obra foi A Construção Social da Cor
(Barros, 2009) onde explica que as diferenças de cor são construídas social e
historicamente. Ele procura examinar a história da construção e actualização de
noções como “raça negra”, “identidade negra” e “raça” de modo geral. A Expansão
Europeia instalou a escravatura moderna e iniciou a construção da “identidade
negra” às custas da eliminação de outras identidades existente aqui em África,
mesmo antes do sistema colonial europeu. Foram dissolvidas as identidades
étnicas africanas ancestrais como zulus, ibos, nuers, ashantis, tekes e outras.
Os colonos procuraram avivar na mente dos africanos a inimizade entre eles e
incitavam as guerras. Os vencidos tornavam-se escravos e eram enviados ao Novo
Mundo (séc. XVII ao XIX). Para facilitar o intercâmbio entre os escravos,
dissolveu-se as várias identidades dos reinos africanos para estabelecer uma
comum, “a raça negra”. Todos eram misturados e foram obrigados olharem-se como
negros, ignorando que eram mandigas, bantus ou zulus. Os próprios esclavangistas
europeus eram ensinados a perceber os africanos como negros (algo muito evidente
na alteração dos nomes africanos para europeus e na alteração do idioma). É isso
o que Barros refere-se ao falar da construção da cor.
FACTORES INIBITÓRIOS DA PERCEPÇÃO
Não apresentaremos os factores que prejudicam todos os tipos de percepção, mas
seleccionamos apenas dois dos principais tipos de percepção – a visual e a
auditiva – a título de exemplo. Mostramos preferência nestes dois tipos por
serem os que mais influências exercem sobre o indivíduo e por serem capazes de
moldarem nosso comportamento, mesmo que de modo involuntário e inconsciente. Na
História Universal verificamos que o homem desenvolveu primeiro os sentidos da
visão e da audição, por isso, constatamos que a arte visual como as pinturas
rupestres e a música foram desenvolvidas desde os primórdios da humanidade.
Facetores Inibitórios à Percepção Auditiva
Um factor torna-se inibitório quando perturba ou impede o bom funcionamento de
alguma coisa, assim, podemos considerar como factores inibitórios da percepção
auditiva os seguintes: Surdez e Alucinações Auditivas: ela pode ser causada pelo
dano nos órgãos receptores ou vias que levam a informação ao cérebro
(hiporacusia/algiacusia) ou áreas cerebrais responsáveis pela audição (surdez
cortical). Há danos mais específicos como ictos ou os traumatismos
crâneo-encefálicos, que podem alterar de maneira concreta cada um dos processos
antes explicados. Os transtornos deste tipo vêm dados por danos selectivos nas
áreas cerebrais encarregues dos processos alterados. A afasia de Wernick
refere-se à incapacidade de compreender a linguagem (sensação de um paciente com
este transtorno seria ouvir um idioma desconhecido). Por outro lado, a agnosia
auditiva é a incapacidade de reconhecer um objecto através do ouvido, e
tratando-se de informação verbal, a pessoa com agnosia não reconheceria a
linguagem como tal. Também pode perceber e apreciar a música, o que se conhece
como amusia (não podem reconhecer ou reproduzir tons ou ritmos musicais). Em
alguns casos, é possível que haja um dano mais específico, perdendo apenas
capacidades para localizar sons ou para imitá-los. Além destes transtornos que
originam uma disfunção, também pode haver transtornos no que levam as pessoas a
escutarem sons inexistentes. O mais conhecido são os acúfenos ou tinnitus, que
consistem na activação errada da actividade cerebral nas capas auditivas,
produzindo alucinações. Isto pode acontecer em transtornos como a esquizofrenia
(onde as alucinações podem ser de acrácter ameaçantes). Outros casos de
alucinações musicais, pode ser aquela onde se ouve a música como que saindo de
um rádio inexistente e que não se pode apagar, ou as alucinações em que a
audição é reduzida, como a Paracusia de Willis;
Facetores Inibitórios à Percepção Visual
Muitos são os factores que prejudicam a percepção visual, os quais são: O
Estresse: segundo a Dra. Monteiro (2012), o estresse provoca “dores de cabeça,
as dores musculares, as alterações no estado emocional (irritação, raiva, medo,
tristeza, etc.), a redução da capacidade de conctração, bem como a deficiência
na toma de decisão (...)”. (p. 210) A Fadiga: ela é causada pelo excesso de
actividades, “insuficiências de horas de sono, as doenças, as consições
ambientais adversas, (...), o trânsito intenso, o habitáculo mal ventilado
(...)” e o incorrecto posicionamento ao sentar-se. (p. Ibid.) (grifos da autora)
As Substâncias Estupefacientes ou Psicotrópicas: a Dra. Monteiro lista também
algumas consequências das drogas como o álcool na percepção visual (embora
envolvendo outras precepções supracitadas), como “diminuição da acuidade visual
(os contornos dos objectos perdem nitidez); diminuição do campo visual
(estreitamento do campo visual, após elevada ingestão de álcool, pode até chegar
‘à visão em túnel’); falseamento na apreciação das distâncias e das velocidades
(...)” (ibid. p. 214).
CONCLUSÃO
A percepção que cada um tem do meio e de si mesmo é o factor primordial para o
desenvolvimento psico-socio-cultural. Portanto, é a percepção que nos torna quem
somos e nos ajuda a adaptar-nos ao nosso meio. Sendo assim, é de suma
importância que saibamos o funcionamento dos órgãos responsáveis pela percepção
e o modo de potencializarmos ela, evitando assim a assimilação e ingestão de
tudo o que inibe o bom funcionamento desta área tão importante para a Psicologia
e outras ciências correlacionadas.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Bock, A. M. B., Furtado, O. & Teixeira, M. L. T. (1999) Psicologias. Uma
Introdução ao Estudo de Psicologia (13ª ed.). Editora Saraiva: São Paulo.
Monteiro, V. (2012). O Código de Estrada (43ª ed.) Edições Segurança Rodoviária:
Lisboa Oliveira, A. O., Mourão-Júnior, C. A. (23/12/2012) Estudo Teórico sobre
Percepção na Filosofia e nas Neurociências. Periódicos Electrónicos em
Psicologia (PEPSIC):
http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2075-94792013000200005
Magalhães, L. (16/07/2019) Olhos. TodaMatéria:
https://www.todamateria.com.br/olhos/ Tipos de Percepção. Psicosophia:
https://sites.google.com/site/psicosophia/estados-da-mente/tipos-de-percepcao
Brites, A. d. Sistema Sensorial – Órgãos Captam Estímulos e Informações.
Biologia:
https://educacao.uol.com.br/disciplinas/biologia/sistema-sensorial-orgaos-captam-estimulos-e-informacoes.htm
Iazzetta, F. (03/03/2008) Percepção Espacial e Percepção Binaural:
https://www2.eca.usp.br/prof/iazzetta/tutor/acustica/espacco/binaural.html
Percepción Auditiva, Habilidade Cognitiva. Neuropsicologia. CogniFit:
https://www.cognifit.com/pt/habilidade-cognitiva/percepcao-auditiva Percepção,
Habilidade Encarregada de Reconhecimento. Cognifit research:
https:/www.cognifit.com/pt/percepcao Fabio de Sousa Candido


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